segunda-feira, 3 de outubro de 2022

MAS, E SE TIVER QUE SER EU ?

 "...Contudo, seja feita a tua vontade, e não a minha" Lucas 22:42

Marco Antônio de Morais Alcantara

Sou de um tempo em que não só aspirávamos como tínhamos expectativas de que Deus poderia nos chamar para a sua obra. Isto nos trazia não somente as expectativas, mas ansiedade, principalmente com base nos desafios que poderiam surgir e da nossa capacitação. Mas a Bíblia é cheia de exemplos de chamados às vezes muito diferentes, e onde se denota que eles são imperativos, e que diante de possíveis declinações da parte, do homem, Deus não os repassou para outros, embora se diga que, nas relações humanas, ninguém é insubstituível. As contingências também, aparentemente, se mostram contraditórias ao contexto do chamado. Passaremos a alguns exemplos, de alguns servos do Senhor que atenderam a diversos chamados, sem o quais nós não estaríamos aqui, no caminho da fé.

Noé foi chamado para construir uma arca, a qual pudesse abrigar a sua família, e um casal representante de cada espécie animal, durante o período em que atuasse o dilúvio que Deus anunciara.

Imagine o papel de Noé, de ser um pregador de fatos que o mundo contemporâneo de sua época ainda não conhecia. É como nos dias de hoje, em que o mundo secularizado menospreza a segunda vinda de Cristo, alegando que sempre existiram céus e Terra, assim como, procuram viver a vida alheios à vida de Deus. No entanto, não haveria, segundo os critérios de Deus, outro que pudesse fazer o papel de Noé dentro da história da salvação.

Abraão foi chamado por Deus, quando este ainda se chamava Abrão; para deixar a terra de sua parentela, e ir para um lugar que Deus lhe mostraria.

Imagine então você, quando está estabilizado em um local, depois de anos de luta para nele se estabelecer, e de repente, estar recebendo um chamado para deixar aquele lugar, lugar já bem definido em termos de relações interpessoais, comerciais, com a delimitação das possíveis zonas de conflito ao longo dos anos, e ainda, como diz o texto bíblico, era o lugar onde estava a sua parentela, onde ele estava aculturado, e então, partir rumo ao desconhecido para ele.

Para o propósito que Deus tinha para a vida de Abraão, importava mesmo esse tipo de rompimento, porque Deus faria dele uma nova nação, a qual se distinguiria das demais ali presentes em sua volta.

Mas Abraão já era velho, e Sara, sua mulher, era estéril, e ainda, também em idade avançada.

Humanamente o projeto era impossível de ser concretizado. Outros casais estariam aptos para este propósito. Mas para Deus, ao qual nada lhe é impossível, não havia outro desígnio senão este. Aliás, mesmo que Sara repassou o encargo da maternidade para Hagar, sua serva, isto não passou pelo crivo de aprovação de Deus. A tarefa que era para Sara não pode ser repassada para Hagar, tendo sido este propósito então se concretizado mais tarde, no tempo de Deus, quando ela concebeu, e deu à luz à Isaque.

O contexto das vidas de Abraão e Sara não foram justificativas para que Deus mudasse os seus propósitos com relação às suas vidas.

Dentro de um estado de conflito familiar, José, filho de Jacó, e neto de Abraão foi vendido como escravo para o Egito. Este foi alvo de uma falsa denúncia, pela qual ele foi preso. Contudo, a sua integridade e o seu temor à Deus os acompanharam, assim como a presença de Deus em sua vida. Dentro do momento reservado por Deus, ele saiu do cárcere, para usar da palavra de sabedoria para com Faraó, e foi feito, então, o vice-governador do Egito.

Através de José, e de sua sabedoria, ciência e competência dadas por Deus, o mundo foi salvo da fome e da escassez que viria, assim como, a sua família, com os outros filhos e Jacó, se instalaram no Egito.

Dos descendentes de Jacó no Egito, se formou uma nação, como Deus prometera à Abraão.

Com as mudanças no contexto político no Egito, surgiu um Faraó que se tornou hostil ao povo de Abraão. Este povo foi subjugado e escravizado. Clamaram então à Deus. Nota-se que já se invocava a Deus como Deus único.

Deus enviou Moisés para libertar o povo.

Moisés já havia sido poupado da matança dos meninos de sua época, matança esta feita por um decreto de Faraó. Tudo se deu por um plano astucioso de sua mãe, e este foi adotado como o filho da filha de Faraó.

Não obstante os privilégios, este se manifestou incompatível com a sua situação frente ao seu povo, e por este motivo ele teve que deixar o Egito,,, fugir da presença de Faraó.

Dentro destas contingências, Deus o chamou para libertar o povo de Israel.

Além de suas contingências pessoais, Moisés era de difícil comunicação, razão que ele tentou se liberar do encargo, Mas Deus lhe designou que este tomasse a Arão, seu irmão, como o seu assessor na comunicação verbal.

Curiosamente, as atitudes precipitadas de Moisés no passado, não impediram que Deus o chamasse para a sua obra.

O povo saiu do Egito, peregrinaram no deserto, murmuraram contra Deus e contra Moisés e contra Arão. Deus julgou tanto os revoltosos, como Moisés e Arão, de modo que muitos pereceram no caminho.

Para entrar na terra prometida, Deus chamou Josué e Calebe como líderes do povo.

Contudo, o povo pecou, repetidas vezes, e a cada vez que isso acontecia o povo era subjugado por povos vizinhos. Deus então mandava libertadores. Gideão foi chamado para libertar o povo dos midianitas, mas ele era de uma família pouco expressiva em Israel. Talvez os filhos dos ricos de Israel estivessem envolvidos com rolês, pelas ruas de israel.

O anjo do Senhor chamou a Gideão como “homem valente”, distinguindo-o por seus atributos, que possivelmente o próprio Gideão desconhecia.  

Gideão assumiu o encargo que lhe foi proposto, bem como, começou o seu trabalho derrubando o ídolo de Baal que havia em sua casa. Gideão derrotou os midianitas com apenas trezentos homens,

 Sansão, também, não obstante os seus momentos de instabilidade espiritual, teve a chance de em um momento único, vencer os filisteus.

Davi, ainda jovem e pequeno, foi quem se propôs a enfrentar o gigante Golias, o qual afrontava o exército de Israel e, sobretudo, o Deus de Israel. Conforme Golias, em Israel não havia homem para que o enfrentasse de frente... mas o exército dos filisteus teve a vergonha de ver o seu guerreiro maior derrotado por um adolescente.

Em Israel e diante de suas inconstâncias, podemos também distinguir o exemplo dos profetas, os quais enfrentaram reis, com os seus falsos profetas, e as redes de fake-news. Um exemplo destes é o caso de Elias.

A sobrevivência de Elias foi um milagre de Deus no reinado de Acabe e de sua esposa Jezabel, a qual tinha sob teto do governo a quantidade e 400 profetas de Baal, sustentados pelo palácio. Elias era minoria, solitário, o qual desafiou os profetas de Baal e Israel para uma disputa no monte Carmelo, onde, o Deus que respondesse por fogo sobre o sacrifício, seria então reconhecido como o Deus em Israel.

Muitos dos profetas de Baal hoje se mostram colocando Deus à prova, diante de questões para as quais nunca haverão respostas.

Elias foi o vencedor diante dos profetas de Baal. A ordem e a adoração em Israel foram restabelecidas para com Deus.

Um caso curioso é o profeta Jonas. Este foi chamado para pregar em Nínive, terra de gentios, não misericordiosos, e este preferiu resistir à voz de Deus. Jonas comprou passagem em um navio para uma outra direção, para Tarsis. Esta viagem não foi bem-sucedida e, diante de uma tempestade, ele foi reconhecido como um desertor do Deus de Israel, fato que atemorizou a todos os tripulantes do navio, pois todos conheciam dos feitos do Deus de Israel. Em um acordo com a tripulação, Jonas foi jogado ao mar., para abater a ira de Deus. A viagem de Jonas terminou no ventre de um peixe, e ele foi "de peixe" pregar em Nínive, sendo vomitado pelo peixe.

A pregação de Jonas foi realizada com êxito, e os ninivitas se arrependeram. Alcançaram então a misericórdia de Deus.

No Novo Testamento tem o exemplo de João Batista, o qual foi chamado desde o ventre materno para ser o precursor do Messias. Ele pregou o arrependimento, e perante os maus religiosos da época, ele os reprendeu chamando-os de “raças de víboras”.  Enfrentar os poderes religiosos da época não é uma tarefa fácil.

Pedro, negou ao seu mestre diante de uma criada, enquanto Jesus estava sendo levado para ser condenado pelos homens. Tudo estaria acabado para ele. No entanto, Jesus o restaurou, de modo que ele fosse um grande apóstolo, e pregou a multidões, e a homens investidos de autoridade. Inclusive, no fim de sua vida, ele se tornou também um mártir.

Paulo, o apóstolo dos gentios, com todos os requisitos de ser um bom judeu, um homem erudito na sua época, era perseguidor da Igreja, e, um dia, ele se converteu, e se tornou um apóstolo, e missionário entre os gentios. Paulo foi usado por Deus, com os seus talentos, a prescrever a doutrina que fundamenta o evangelho.

Através desses exemplos, podemos notar que Deus escolhe os seus obreiros de acordo com a sua vontade. Muitas vezes, achamos que as escolhas de Deus são as mais estranhas aos nossos olhos, mas Deus é o melhor gestor de recursos humanos que existe. Ou as características já estão dentro de nós, ou Ele capacita.

Deus não revoga, mas mantém aberta a porta para a obediência.

Deus não nos chama pelos nossos méritos, capacidades, ou pelo investimento com base naquilo que daremos depois. Ele conhece a nossa instabilidade.

Noé, após o dilúvio, se embriagou na sua tenda, e causou constrangimentos.

Elias, após a vitória sobre os profetas de Baal no monte Carmelo, teve medo da rainha Jezabel, que o ameaçou, e ele se escondeu em uma caverna.   

Jonas, após a sua pregação, e o arrependimento dos ninivitas, não foi misericordioso, e fez torcida contra eles.

Em todos os casos de recaída, Deus restaura e redime. Ele trata dos seus servos.

Como dito, Deus não se vale da nossa suficiência. A nossa suficiência vem Dele.

Agora, um último exemplo, a ser retratado aqui.

Há muito tempo, desde a eternidade, um problema havia de ser solucionado: o da redenção do homem. Isto implicava em que um sacrifício fosse realizado, para o pagamento dos pecados da humanidade, e da restauração do homem.  Alguém deveria pagar por este preço, e ser sacrificado. Não poderia ser o próprio homem, caído, e sim alguém que tivesse cumprido a lei de Deus, e encontrasse justiça que satisfizesse a Deus, e prefigurasse um cordeiro sem defeito. Somente Jesus, o filho de Deus, estava apto para cumprir com este sacrifício, para a remissão dos pecados da humanidade.

Jesus assumiu esse encargo, embora Ele não tivesse cometido nenhum pecado. Ele se submeteu à vontade do Pai, dizendo, na última hora: “Que seja feita a tua vontade, e não a minha”.

Com base nestes exemplos, e no exemplo máximo ora apresentado, que possamos estar encorajados para aquilo que Deus nos designar.    

     


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